Não é algo que acontece de uma vez. A gente não acorda num belo dia e percebe que se perdeu; é um processo lento, feito de pequenas ausências. É continuar fazendo o café, cumprindo os prazos, respondendo às pessoas, enquanto, por dentro, a sensação é de estar só assistindo à própria vida do lado de fora.
São músicas que trazem lembranças de um dia em que fomos felizes, cheiros que relembram momentos e aquela pergunta silenciosa: "Quando foi que eu esqueci tudo isso?". É se olhar no espelho esperando encontrar olhos gentis, sorriso leve e espontâneo, traços de uma juventude sem preocupação e dar de cara com olheiras, olhar cabisbaixo e marcas de cansaço, de uma vida corriqueira sem tanta beleza. Infelizmente, esse é o sabor da vida adulta.
Minha vida mudou de cor quando entrei aos vinte e tantos anos, tudo pareceu estar tão sério, tão seco, e a necessidade de um trabalho se fez constante. E, de repente, minha vida se tornou aquele trecho "Eu estava procurando por um emprego e então eu encontrei um emprego, e os céus sabem que agora eu estou infeliz". (e eu te juro, não é uma reclamação, eu AMO trabalhar na creche, com crianças)
Isso não é uma reclamação sobre a vida adulta, ou sobre as responsabilidades, é quase um desabafo de alguém que se perdeu. Me disseram, muitas vezes, que aos vinte e cinco o córtex pré-frontal estaria finalmente pronto e, com isso, eu teria certezas, conselhos impecáveis e viveria o meu auge! Mas tudo o que eu consegui foi esquecer o que eu gosto de fazer: será que eu gosto de pintar? Desenhar? Cozinhar ou, talvez, eu realmente goste de escrever.
E eu te juro que tentar resgatar quem você realmente é quando a rotina engole tudo o que você ama é brutalmente frustrante. Como eu encaixaria uma rotina onde eu faço journaling após oito horas de uma jornada de trabalho e tendo que conciliar com a limpeza da casa? Ou, então, como eu conseguiria pintar depois de oito horas de trabalho com mais duas horas de transporte de ida, três horas de faculdade e mais duas horas para voltar para casa? A minha leitura estaria fadada a ser feita APENAS enquanto estou em transporte público ? Quando vou poder fazer uma pipoca doce e sentar em frente à televisão e assistir a horas e mais horas de um desenho bobo?
É estranho ter que se programar o tempo todo para, quem sabe, poder ler meia hora antes de dormir, ver um ou dois episódios de uma série, acho que o cúmulo da estranheza é nós, mulheres, precisarmos separar uma noite inteira ou um dia inteiro para poder tomar um banho "premium", um banho com CALMA! E são nessas de precisar se planejar que vamos deixando de lado um pouco do "eu".
"Eu quero ler, mas estou cansada demais agora, amanhã eu leio" e não lê. "Quando chegar em casa escrevo para aliviar a cabeça" e não escreve. "Vou pintar um pouco para distrair" e não pinta. "Vou ver algo com a minha mãe" e, adivinha? Não vê!
É nessas banalidades anuladas que vamos jogando fora, aos poucos, pedaços do "eu". Abandonando gostos que eram nossos maiores traços de personalidade até virar apenas um grande eco do que a gente costumava ser. E tentar se curar disso, romantizar a vida, se reconstruir dói. É uma dor silenciosa de quem não tem todo o tempo do mundo como uma criança.

Oi Ana. Ou Nana...chegando por aqui.
ResponderExcluirE nem te digo que você se parece muito com o tipo físico das mulheres da família da minha mulher. Na verdade, você se parece muito com uma sobrinha da minha esposa. Ah, vai, isso é irrelevante, é só pra não chegar logo dizendo que se perder durante a caminhada é muito comum, creio que acontece com tudo mundo.
E sabe, do auge da minha super experiência de vida (nossa, soou arrogante ou elegante?) é muito difícil sermos nós mesmos. Estamos sempre querendo nos adaptar ao nosso círculo social para ser aceito. Muitas vezes, ser nós mesmos mais afasta as pessoas do que atrai. Isso quer dizer que eu ache que temos sempre que viver de máscaras? Sim e não. Você só é você de verdade quando ninguém tá olhando...
Mas é bom ser autêntico. É bom tentar no máximo ser você. Mas ao fazermos isso, temos que lidar com os que vão achar um nojo tanta autenticidade.
Qualquer dia a vida desacelera. A gente aprende a lidar com a rotina e a colocar boas distrações no meio dela. Se é pra ler na condução, ótimo! Eu já fiz muito isso quando minha carga de trabalho era intensa.
Aliás, o que estou fazendo? Aqui dando "conselhos" a quem não me pediu...perdão. Cada caminho precisa ser feito pelo próprio caminhante.